foto-silviaPor milhões de gerações, os indígenas das Américas viveram nas florestas e nos campos de caça e coleta. No baixo Amazonas e nas Guianas, o símbolo dessa prática de caça parece ter sido a rã que, em alguns mitos, aparece como sendo a avó dos gêmeos míticos, como a dona da magia da caça, treinando um herói nessa atividade. Por que uma rã seria a dona da magia da caça? Sabemos que no Equador, Colômbia e Brasil, tribos indígenas, antigamente (e algumas ainda hoje) esfregavam a ponta das flechinhas da zarabatana nas costas de rãzinhas (Dendrobatidade) muito coloridas, brilhantes e muito venenosas. O veneno de rã, com o tempo, foi sendo substituído pelo igualmente eficaz curare. Mas os famosos muiraquitãs na forma de rãs, que hoje são tidos como amuletos de sorte no amor, eram, outrora, amuletos de caça.

Em muitas regiões, junto a rios e lagos, a população indígena acabou se sedentarizando, praticando principalmente a pesca (embora continuando também a caçar e coletar). Nessas regiões, como por exemplo, no Alto Xingu, o jacaré é tido como senhor dos peixes. É um animal agressivo, que pode matar um homem e, por isso é a entidade temida podendo castigar os seres humanos que, por acaso, agirem de forma errada com os recursos fluviais. E é esta crença que a cerâmica arqueológica marajoara testemunha: a figura do jacaré está nela onipresente, e um dos exemplos mais belos é um duplo-jacaré que escolhemos para, juntamente com a rã, identificar a Fundação Araporã, pois a caça e a pesca, aliadas à coleta e à roça, são atividades tradicionais dos nossos indígenas que, com elas, preservaram a natureza da forma exuberante tal como ela foi encontrada logo após 1500, pelos primeiros cronistas.